vizinha
— Passa, fia, entra um pouco. Vem tomar um café.
— A menina foi embora, don’Ana?
— Geraldo veio buscar há pouco. Um trisco. Aqueles óio esbugalhado de quem não consegue entender o que vê, aquele corpo enrolado, cara de espanto. Como pode uma pessoa tão franzina fazer o que fez? Como pode, fia?
— A gente faz coisas, don’Ana.
— Olha que eu já andei de um lado pro outro nessa casa, já varri, já arrumei, já lavei, já sapequei a gata, já molhei as plantas e agora estou aqui, passando café, a ver se o bordado me traz algum sossego. Toda essa doidura perturbou minha mente. Não paro de remendar os pedaços dessa história cabeluda. Estou tão aflita, fia. Pensar que fui de dentro daquela casa, que frequentei essa gente. Coitada da Amália. Antes morrer cedo a ver tudo isso.
— Não sabia que conhecia a Amália, don’Ana.
— Conhecia, sim, Deus a tenha. Nós éramos até próximas. Não é dizer que fomos amigas, mas acudíamos uma à outra nos sufocos. De primeiro, era assim: precisava de qualquer coisa, podia contar com a vizinha. A vizinha salvava a gente com uma xícara de açúcar que faltasse, um ovo, um copo de farinha. Outros tempos, fia. A gente fazia qualquer coisa em casa e passava um prato pelo muro para a outra provar. Era costume sentir um cheirinho de bolo assando no forno e, quando dava fé, chegava um pedaço generoso do quitute morninho. Era assim quando fui vizinha da Amália. Dá sua xícara, fia.
Acontecia muito de chegar na porta e ouvir a gritaria lá dentro. Já sabia que tinha cachorrada acontecendo. Sabia que o machão batia nela e nas crianças. Volta e meia estava Amália com um olho roxo, a cara amassada, vestindo camisas de manga comprida. Mas é aquela velha história, fia, a gente não pode se meter. Reginaldo tinha pavor de me ouvir falar das coisas que eu ouvia da casa dos vizinhos. Dizia que se eu me metesse na vida dos outros, me largava. Mas eu sabia. Sabia que aquele Tonico não valia nada. Era um bicho bruto, que vivia dentro de casa estorvando a limpeza e espinafrando a mulher e os filhos.
Tonico era desses tipos que só falam zurrando e dando coice. Desses tipos que não sabem de coisa alguma, que não viraram nada na vida e descontam em casa sua humilhação. É desses que perderam o pouco que tinham por intransigência e arrogância. Eita, misturinha ruim, fia. Sabe esse tipo feio, que fede a rabugem e fica ali em volta da mulher, mandando sair logo a comida? Esse tipo que acha muito justo, só porque anda entediado, sair metendo a pica em todo mundo? Pois, esse era o velho Tonico. Amália aparava, entrava na frente e levava tudo. Adoeceu, claro. Nunca entendi muito bem o que houve. Poucas vezes fui lá quando ela caiu de cama.
Hoje cedo, estava me lembrando de quando fui levar uma sopa que tinha acabado de fazer. Era à noitinha e eu sabia que o carrancudo estava para os lados da cidade. A menina Rosa abriu a porta e eu deixei os pratos, um sobreposto ao outro, sabe, embrulhados no pano de prato para manter a sopa quentinha. Orientei a menina Rosa que alimentasse a mãe enquanto o prato ainda estava morno e fui saindo. Rosa tinha uma beleza estranha, o rosto cavado, os óinho fundo, que não deixavam passar nada e parece que imploravam por alguma coisa. Nesse dia, me lembro de espiar melhor a entrada da casa e achar tudo meio sombrio. Fui capturada por um quadrinho de madeira que ficava no canto da parede. Um quadrinho pequeno mesmo, boiando perdido na brancura pelada das paredes da sala, onde a televisão, sempre ligada, era o único ponto de luz que pescava os óio da gente. A taboinha tosca, meio ovalada, era nitidamente uma lapa de tronco sobre a qual havia um desenho de uma árvore recém-cortada e caída. Pegado ao toco enraizado que restara, bem no lugar onde a árvore fora decepada, estava fincado um machadinho. Não era pintura, mas uma miniatura da arma. Parecia um brinquedinho. Ao lado do tronco tombado, lia-se: Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere.
Não sei por que tinha de me lembrar desse quadro hoje, fia. Pra mim, esse quadro é desses troços que a gente vê e não vê. Nunca dei importância a esse detalhe. Agora, depois da notícia das mortes, não me sai da cabeça. Fico me perguntando quem pendurou aquilo ali. Só pode ter sido o velho. Quem mais ousaria bater um prego naquelas paredes e fazer figurar qualquer coisa sem o seu consentimento? Tonico, o machão.
Depois que a Amália morreu, ele bateu nas crianças até entortar. Mais café, fia? O rapaz foi embora assim que cresceu um pouco. Fez a trouxinha dele e deu no pé. Depois da mulher, era quem mais apanhava. Tonico nunca nem procurou por ele. Fez foi fingir que não tinha filho e proibir qualquer um de falar o nome do menino em sua presença. No dia em que o filho do pedreiro apareceu por lá e perguntou pelo amigo, faltou ralar a cara dele no asfalto. Régis, era nome do rapaz. Também nunca voltou pela irmã. Rosa ficou só com o velho. O que eu não sabia, mas devia ter imaginado, era da fuça dele nas carnes da pobre. Devia ter imaginado. Devia ter imaginado que ela sozinha com o velho naquela casa não podia dar coisa boa. Poucos meses depois de o irmão ir embora, Rosinha apareceu com o bucho cheio e a cara amassada, feito a mãe. Não, ninguém fazia nada. De primeiro era assim, fia, ninguém se metia.
Rosa assumiu a casa, as tarefas todas da mãe e a filha que ele fez nela. A filha da filha. Tonico dizia por aí que era de outro homem, mas qual? Rosa não saía de casa. Se saía era para a venda ou para a igreja. O pai e o padre eram os únicos homens que ela conhecia. Imagina se ela podia namorar alguém.
Nasceu o bichinho feio. A gente custou a saber se era menino ou menina. Agora, penso que Rosa fez a menina feia de propósito, pra ver se ela escapava do destino. Além de feia, Rosa fazia questão de trazê-la sempre suja e fedida. Jussara tinha a pele manchada, o cabelo esgadanhado, piolhenta e maltrapilha. E não é que Rosa não fosse asseada e não soubesse cuidar de menino pequeno. Amália ensinou. Tudo ela fazia no maior capricho. Acho que esse era o jeito dela de proteger a criatura do velho. E apanhava, viu, apanhava porque não zelava pela menina.
— Mas a Rosa também desapareceu, don’Ana. Por que ela iria embora sem levar a criança?
— Desapareceu nada. Quem disse? Acharam a Rosa, fia. A Rosa… acharam os pedaços dela. Você não sabe? Encontraram os restos da moça despedaçada numa cova rasa, perto da casa. O corpo do velho retalhado, mas completo sobre a cama. Rosa, não. Rosa foi esquartejada. Por isso é que estou nesse estado. Não consigo desligar. Andam dizendo que foi a menina. Aquele trisco, fia. Como pode? A policial que a levou sentou aí onde você está e me disse como a encontrou.
O piso vermelho craquelado, o quintal que era só lixo e bananeira alta. Lixaiada nojenta de anos: resto de comida, bicho morto, embalagens, preservativo, absorvente usado. O corpinho torto meio escondido pela porta entreaberta, aquela corcunda inconfundível, a cara retorcida, a carne dura que não a deixa erguer a cabeça quando chamam por seu nome. Ei, Jussara, larga isso!, chamava a policial. Diante do corpo retalhado de Tonico, a mulher se deteve sob o batente esperando que as pernas respondessem. Dali, a vista não alcançava mais que as sombras de uma sala desconhecida. Uma umidade se desprendia das paredes e ela achava familiar. Não era cheiro de mofo. Antes, um embaraço de alvenaria que não seca, de construção que nunca termina e deixa na casa esse fedor de fracasso, até quando está limpa. Engastalhou ali, diante do corpo ensanguentado do morto e da frieza espantosa da menina, em pé, diante do velho, esquecida de si. Só largou a arma depois de muitos chamados.
Aos poucos foi voltando ao presente. A cara embaçada foi recobrando as feições de criança. O corpo amoleceu e ela caiu desfalecida. Levaram-na para a cozinha, onde, sentada, olhava para a policial atônita. Não queria falar, nem deixava ninguém se aproximar. Um bicho acuado que abraçava as pernas, trazendo os joelhos para junto do peito, tentando se proteger. Levou horas para conseguir comer alguma coisa e só foi falar depois de dias. Foram pacientes com ela, contou a moça que se sentou bem aí. Foi ela quem se aproximou da menina e conseguiu ouvir dela uma versão do ocorrido.
— O que ela disse, don’Ana?
Contou que, depois de muito varrer, foi nas pontas dos pés xeretar sobre o fogão o feijão que fervia. Quis provar, mas o barulho a preveniu. Encolheu o corpo retorcido. Tentou virar um tamborete, mas não teve tempo. Os passos do velho se aproximavam. O cheiro do ar ficou ácido, a rabugem o precedia. Ele apontou na porta da cozinha, arrastando as chinelas no piso carmim. Quis saber se já estava pronto e o que tinha para comer. Ela respondeu que quase e destampou a panela para que ele mesmo visse o que fervia. Ele grunhiu e desatou uma bofetada em seu ouvido, emendando que quando ele perguntava, não era pra mostrar, era pra responder. Ela cambaleou com a mão no ouvido e abaixou a cabeça, engolindo o choro para oferecer uma resposta sem a qual ele não arredava.
O mais difícil, contou a menina, era que não podia precisar o instante em que aconteceria, porque nunca havia uma correlação direta com algo que fizesse, algo que pudesse prever e evitar. Às vezes, ele a levantava da cama às cintadas e ela pensava que havia perdido a hora, dormido demais ou deixado alguma tarefa por fazer. Então, ela se erguia e começava a passar o café, via que ainda estava escuro e não compreendia por que, mas esperava a bofetada. Havia dias em que quase passava ilesa. Esses eram os piores. Antes acontecesse logo cedo. Mil vezes o latejar da dor a essa expectativa desgracenta. Não havia meio de Tonico esquecê-la, de deixar de extravasar sua porção diária de brutalidade. O dia não terminava enquanto não a atravessasse. Jussara nunca perguntou a ninguém por que infernos precisava suportar aquilo. Nunca falou sobre isso com a mãe, que praticamente emudeceu depois da fuga do irmão. Rosa ficou seca, uma morta-viva. Não falava nem com a filha.
Jussara disse que, naquele dia, olhando para o velho estirado, viu o próprio corpo projetado entre as sombras da sala. Antes disso, só lembrava de varrer o cimento vermelho, como sempre fazia, esperando pelo pescoção. Varreu cada canto da casa e o tapa não veio. A poeira foi subindo, fazendo uma névoa nos seus pensamentos. Ela esfregava o chão com a piaçava, esperando. A poeira diminuindo. E nada. No começo, ela não lembrava o que aconteceu. Quando olhou pra cama, lá estava o corpo recortado do Tonico. Os talhos na carne lacerada. O sangue escuro empoçado começando a manchar o chão desbotado, entrando nas frestas craqueladas do cimento. Ela olhava a cara do velho e não o reconhecia. Conheceu as roupas, a calça jeans surrada, a camiseta velha que ela mesmo lavava. O corpo, não. Não conhecia aquele corpo aberto e inchado. Aquele corpo estraçalhado sobre a cama em que ela tantas vezes foi obrigada a se deitar.
Não foi à toa que a menina encarquilhou daquele jeito, fia, a mãe a fazia trabalhar duro, pegar muito peso desde cedo. Desde que a Jussara nasceu, e tão logo ficou de pé, a Rosa achou um jeito de trabalhar fora. Decerto não suportava ficar dentro de casa, cara a cara com a menina. Delegou a lida da casa à filha e saía cedo para limpar a igreja e a sacristia. Não sei como Tonico permitiu, só porque era a igreja mesmo. Ganhava uns trocados e voltava a tempo de terminar o jantar. Ela e a filha se desconheceram. Nem vozes, nem passos, nem olhares se cruzavam. Transeuntes dentro de casa, cada uma com sua lida. Transmitiu o que sabia pelos gestos e uns grunhidos de palavras.
No dia em que Jussara foi encontrada diante do corpo do velho, contou que tinha visto, mais cedo, um filete de sangue por baixo da porta do banheiro. Disso ela se lembrava. Quando abriu a porta e se deparou com a mãe ensanguentada, ela só sabia que tinha de se livrar daquela sujeira. Não conseguiu explicar de cara à policial o que tinha se passado. Não ouviu nenhum barulho, nenhum grito. Não soube explicar como a mãe tinha morrido. Se apressou em apanhar os panos, o balde, a faca mais afiada da casa e partir para a lida.
Jussara descarnou a mãe com a habilidade de quem aprendeu com ela a ajeitar o gado abatido para durar o mês inteiro. Ligeira e fria. Extirpou as vísceras, fez força para separar os ossos das articulações difíceis. Depois, separou a carne da manteiga, notou a diferença das fibras, o sentido das nervuras, as capas. Foi assim que ela destroçou Rosa e a descartou em sacos. Exausta, ainda lavou o banheiro e preparou o jantar. Pela primeira vez, estava sozinha. Se sentou na cama torcendo pra que o velho chegasse logo e não a acordasse aos murros. O feijão fervia quando ele chegou trançando as pernas. Melhor assim, que apanhasse logo antes de dormir. Cansada como estava, era capaz de nem sentir.
Não dormiu. Amanheceu sentada na cama, com a claridade fustigando os olhos, ainda aguardando a bofetada que não veio. A panela no fogão estava seca, pretinha. Em tempo de incendiar tudo. Passou o café e caminhou pela casa. A mãe ensacada fedia dentro das sacolas de plástico. Ela demorou a tomar qualquer iniciativa porque sabia que se o velho a surpreendesse mexendo em suas ferramentas a surra seria pior. Chegou na porta do quarto e viu o velho deitado com a pança para cima. Ofereceu café, mas não veio resposta. Chamou de novo e nada. Entrou na penumbra, arrependida no primeiro passo, e se deparou com o corpo retalhado sobre a cama, a boca aberta, o peso sofrível dos ossos. Pelo jeito como estava tombado, parecia que quase não tinha dado para chegar ao colchão.
Não se lembrava do que viu, nem do que fez. Correu pra fora da casa e cavou como pôde o buraco onde jogaria os pedaços da mãe. Sabia que aquilo não estava certo, que a cova era muito rasa e que o cheiro da carniça iria subir e os bichos viriam revirar a terra. Fez o que deu. Limpou e guardou a enxada no lugar. Voltou ao quarto sem tirar os olhos da porta e da janela. Não sabe precisar quanto tempo ficou ali no escuro do quarto, olhando para o corpo sobre a cama e o machado no chão.
O estrondo na sala fez seu corpo se eriçar. Jussara era só coração. Teve medo de que alguém escutasse as batidas. Não houve nada de covarde na decisão de conter a respiração, acarinhar o gato que se enroscava em suas pernas e não responder ao chamado. Pensou na dor a que estava habituada. Deu um passo pra trás, agarrou a arma e levantou os braços acima da cabeça, sustentando o machado. Engoliu a golfada de saliva que desceu espessa e tinha gosto de murro. Sentiu a inhaca do velho empestear a casa. Ouviu os passos se aproximarem e, antes que desferisse o golpe, foi despertada pela voz da policial.
— Fia, tudo bem? Passo outro café?
— Não, don’Ana, obrigada. Estou em choque, não sabia de nada disso.
Jussara foi liberada depois do depoimento. Geraldo contou que, mesmo sendo a principal suspeita, não podia ficar na delegacia. A delegada deu ordem para ficar em casa, deixou um cabo vigiando dia e noite aí na porta e me pediu pra levar comida pra ela. Perguntou se eu fazia comida em casa, se não me importava de levar e, qualquer coisa estranha ou diferente, que eu avisasse na delegacia. Assim eu fiz até hoje cedo. Deixei um pão com ovo mexido e uma caneca de leite com café. Vou lá três vezes no dia. Não entro na casa, só espio como ela está e pergunto se precisa de alguma coisa. Ela nunca me encara. Arredia feito bicho do mato, balança a cabeça de um lado pro outro, como quem diz querer nada. Come e deixa as vasilhas limpas na porta. Dia sim, dia não, uma viatura estaciona aí e leva ela pra conversar com a delegada. Hoje levaram ela de vez. Parece que vai pra uma instituição pra menores, sei lá onde. Geraldo disse que Jussara se lembrou de tudo e confessou os crimes. Não foi ninguém mais que matou a mãe e o velho. Foi ela.
— Que foi, fia? Cê tá branca… Toma aqui um pouco de água.
Fernanda Marra nasceu em 1981, em Goiânia. É mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Teoria Literária pela Universidade de Brasília (UnB), com pesquisa sobre a obra da poeta Alejandra Pizarnik. Publicou taipografia (martelo, 2019) e furonofluxo (Telaranha, 2023). Seus poemas também podem ser encontrados nas revistas especializadas de literatura Cult, Escamandro, Germina, Ermira, Ruído Manifesto e Acrobata. É servidora pública, psicanalista e, sempre que pode, oferece cursos e oficinas de escrita.

