notas de outras an/danças: conversas com be rgb

Entrevista com be rgb

De onde surgiu a ideia e a motivação para escrever o livro?

A princípio, foi a coagulação de uma sensibilidade nova que nasceu em mim na Ilha de Santa Catarina. Sempre fui caminhante e valorizo a tradição mística das peregrinações, mas apenas lá a prática se integrou à minha vida, indo da Trindade à praia da Galheta ou da praia da Solidão à da Joaquina no mesmo dia. Essas travessias deslocam minha consciência de modos extremamente vitais e se encarnam nos músculos, em como respiro. O livro, assim, se mostrou como um desdobramento textual dessas an/danças, porque também caminho pela linguagem — na escrita e/m tradução e/m oráculos — e ela se transmuta comigo nesses percursos.

Como você descreveria o livro?

notas de outras an/danças é um livro-mapa que elabora sensações vividas e imaginadas em trilhas da Ilha de Santa Catarina, de El Chaltén e do Anhangava (perto de Curitiba). Esse trajeto é estruturado em três ciclos de sete processos alquímicos, com um texto final — espelhando como inspiração os Vinte e um poemas de amor de Adrienne Rich — que representam as transmutações da consciência encarnada em sua relação com essas paisagens e os seres que vivem nelas, assim como as presenças para além da matéria que a afetam. É um livro sensorial de uma imaginação caminhante.

Por que você escolheu este título?

Vou desmembrar o título em suas camadas. “Notas” porque lembra o tipo de anotação breve que se faz em pequenos cadernos de viagem; “outras” por apresentar uma sensibilidade que desvia dos trajetos normativos — tanto pela via mística quanto pela experiência trans — em trilhas que não constituem a forma convencional de andar do cotidiano; “an/danças”, termo que cunhei em minha tese para caracterizar seu fluxo teórico, se refere a esse movimento de estar atente às relações entre que não anda como função, mas coreografa deslocamentos pelas rochas, areias e águas.

Como foi o processo de escrita desta obra para você?

Comecei a escrevê-lo em 2021, momento em que estava muito vulnerável e, como no arcano da Estrela, as trilhas me abriram para o vento sul, o diabásio, as algas e outros seres da Ilha. Nela, nasci não somente como transmasculine, mas principalmente como existência encarnada que nas an/danças se encontra. O texto continuou com o que me comoveu nos senderos de El Chaltén,
para onde fui no final de 2022 como rito de encerramento de minha tese de doutorado. Quando me mudei para Curitiba no começo de 2023, o que me aliviou foi encontrar o Anhangava, processo descrito no último ciclo do livro como criação de aterramento. O livro, no entanto, também passou por uma transição de gênero, pois a princípio estava em verso e, em agosto de 2025, decidi traduzi-lo para prosa.

Como foi essa materialização do projeto?

Um aspecto fundamental do notas de outras an/danças é sua materialização como livro-mapa, criação que foi lindamente elaborada por Rogério Bettoni. Depois de ir à feira (des)dobra em junho de 2025, idealizada por Daniele Rosa e Emanuela Siqueira, percebi que meu livro também poderia se desdobrar como um mapa das localidades percorridas, também poderia inscrever seus relevos. Comentei essa ideia com Rogério, Bárbara e Guilherme e decidimos levar adiante esse formato. O mapa final, composto pelos três territórios, parece um daqueles mapas imaginários da
antiguidade, sintonizando muito com a proposta sensível do livro. 

be rgb escreve, traduz, revisa e oferece oficinas de escrita. Pesquisou sobre os estudos feministas da tradução e/m queer~cu-ir no doutorado na UFSC. Publicou as plaquetes with a leer of love (2019), esse Ken às vezes é boyceta (2023) e orlik oulam (2025), e os livros querides monstres (2021 e 2023), a mística do bestiário não binário (2023) e transmigrações (2024). Traduz literatura e não ficção do inglês, espanhol e catalão. Faz umas pontas como assistente de palco em eventos drag. Mora em Curitiba desde 2023.