não dá pra ficar de fora da feira da vida, kiddo | por julia raiz
Nas primeiras décadas dos mais de quatrocentos anos de duração do Império Romano, o sobrenome César virou um título imperial. Daí derivaram czar, kaiser, kaisar, tsar e qaysar. O projeto de poesia do meu amigo Leonardo Marona não podia ser mais anti-César. Posso com tranquilidade situar Doce mal permanente dentro de uma trajetória poética anti-César, aproximando o livro de Marona a outro César, um César menor. O escritor argentino César Aira diz que, para existir arte, tem que existir desvio, quase uma perversão, do interesse — aquele interesse que é único, obsessivo, coerente, totalitário, imperial.
E a forma mais econômica de alcançar esse desvio é juntar um interesse a outro, de maneira abrupta, formar uma junção esquisita. Por mais inofensiva que essa junção possa parecer, ela é radicalmente subversiva, porque, ao desestabilizar o interesse único, abre espaço para a arte de fazer e de pensar. O que Aira está dizendo é que existe arte nas analogias drásticas. O que eu estou dizendo é que são analogias drásticas o que encontramos na poesia anti-César de Marona.
Doce mal está cheio de junções drásticas — uma das minhas favoritas é o coração, um bumerangue de pedra dura, imagem que me lembra eu mesma quando criança juntando casca de ovo, pedaço de graveto, saúva morta e doce de leite, tudo dentro de um potinho que botava no congelador. Depois, ia buscar a mistura transformada em uma coisa só e assistia derreter. Doce mal é uma espécie de brincadeira séria na qual interesses são juntados com outros interesses, abruptamente. E, por ser brincadeira, não surpreende que a palavra criança (ou crianças) apareça 24 vezes.
O que é uma criança além de uma junção inesperada de pedaços que já existiam antes com pedaços que não se sabe de onde vieram? Dizem que uma mãe sabe sempre o que uma criança quer dizer quando está aprendendo a falar. Eu, às vezes, não sei o que a minha criança diz e, às vezes, sei o que ela diz por telepatia, sem palavras. Em Doce mal, criança é solta, suor, magra, muito séria, jesuíta, pobrezinha, vermelha, menor, órfã, esfomeada. A maior devoção deste livro vai às crianças antes das palavras. Forças sobrenaturais, furacões, supernovas. As crianças do livro de Marona são tão anti-César quanto a sua poesia. São tão anti-César que não gritam apenas o rei está nu, gritam o rei está nu e fede a gente limpa!
A infância é mesmo um elástico esticado, fazer poesia aqui é também um elástico esticado, doce mal de duração esticável. E é aí, na duração às vezes insuportável do permanente, que infância se junta a outro interesse: o bando. Isso porque todo mundo teve que ser criança, sem exceção. Um bando poético que quase está sempre morrendo, mas nunca morre ainda, esse é o ajuntamento que aparece na trajetória de escrita do Leo Marona. Em Doce mal, a coletividade atinge um tipo de auge, crueldade doce, doce imprecisão, doce avalanche.
Na infância, a gente conhece muita gente, mais gente do que vai conhecer a vida inteira. Você chega no campinho e faz onze amigos e chama o amigo de amigo e ama na hora como amigo em menos de três minutos, feito macarrão instantâneo. Um livro que é recheado de criança só pode ser um livro de matilha, laia, cardume, estirpe, corja! A criança em sua coletividade pode ser muito cruel e pode ser muito engraçada. Eu já ri muito com os livros do Marona. Mas o que é engraçado? Talvez seja pegar o metafísico e trazer pro chão. Despir tudo do metafórico, do figurativo, engraçado pode ser o que desloca do metafísico pro material. Saci não é metáfora, vem de redemoinho quando ninguém está olhando, só criança (Saci apareceu pra mim em sonho essa semana e eu fiquei em dúvida se ele é criança ou adulto, mas sei que mora na infância).
Os gatos lambem as axilas do poeta: é assim que começa um livro de poemas menos metafórico e mais literal. Jogo meu próprio coração fora e ele me atinge de volta na cara, duro como uma pedra dura. Jogo meu próprio coração fora e ele cai duro no chão, não volta. Isso tudo eu vivi com o coração bumerangue. Doce mal chega pra mostrar que as crianças são nossas boias no deserto contra a decadência dos velhos romanos. Os poetas anti-heróis, heroicos de uma heroicidade de brincadeira, estão sujos com uma sujeira santa por estarem brincando na altura divina do chão. Os poetas são metamorfoseados em crianças neste livro.
Recebo uma mensagem da escola da minha criança: depois das 8:05, trancaremos a porta de vidro por motivos de segurança. O golpe mais baixo dos altos Césares é transformar as crianças em adultos assassinos de crianças. Contra a transformação de crianças em adultos assassinos, a poesia de Marona me faz sentir que ainda é possível transformar crianças adultas em crianças anti-César, que quanto mais amam, menos sabem.
O poeta deveria mesmo aprender a boiar no rio do menos saber, o saber do não saber. Marona aprende isso principalmente com os músicos, que, quando aparecem no livro, oferecem uma duração devagarinha. Nelsinho (Nelson Freire) começou a tocar piano aos três aninhos de idade, e Joãozinho da Patu (João Gilberto), aos sete, já brincava de ter ouvido absoluto.
Sem moral nenhuma, com a força do pequeno, o livro avança nas duas partes a fazer faísca e disputar à pequena faca. Disputar a canivete, que é uma coisa muito útil, que cabe no bolso das crianças, com a qual elas podem escapar das armadilhas do fascismo como bichos que de verdade são. Eu menina assisto à mistura descongelar, eu sei que não tem doce que dure pra sempre, que não tem mal que não acabe, isso é a história que nos ensina. É nesse sentido que acredito que Doce mal considera a história e é atento a seu tempo (alô, Lula).
Só o que dura permanente é a repetição do doce mal da comunidade, com a qual não fazemos nada que não seja alimentar a tocha imaginária que mantém acesa nossa turba/espécie fraca/ gangue de medrosos que desejam coragem coletiva/atrás de encontrar o sangue irmão/dar a volta ao mundo para cruzar com os da mesma laia. Quero, com Marona, não ter medo do medo de viver em comum. Porque posso aprender que “o medo que sinto na rua me torna criança”, “te amo tanto na rua”. Quero mãos, quero alguém, quero a vida, quero rasgar, quero arder, quero é poder (esse é o querer em Doce mal, pois pra saber de um livro de poemas é preciso talvez saber onde está o seu querer).
É também no doce mal da comunidade que experienciamos a sensação angustiante do ciclo vicioso de nascer/morrer. Ainda lemos os romanos e gregos antigos anunciando a estreia dos velhos erros repetidos. Como inaugurar novos erros? Depois de Doce mal, estou desesperada por novos erros. Daria um murro na cara de alguém por novos erros. A poesia do Marona é muito violenta e me coloca assim pensando nas crianças malditas de Silvina Ocampo (argentina como César Aira, argentina como os roqueiros argentinos Charly e El Flaco), crianças mortas e assassinas, perversas e assassinas, vivas e traumatizadas.
Dentro deste livro existe um ritual selvagem de amizade e horror que se mistura com descrições de uma espécie de cotidiano onde o que vale é não morrer, pelo menos não ainda. É possível aqui e agora o amor? Lembro-me daquela dos Tribalistas. Não “Velha infância”. Uma outra, que me faz pensar na poesia do Marona e seu jeito de amar: o amor é feio, tem cheiro de mijo; o amor é lindo, faz o impossível. Talvez o amor seja esse pequeno bando de pessoas que podem ser pequenas umas com as outras. Por isso, um dos poemas mais amorosos do livro é sobre fazer uma sopa suficientemente decente, quando a pessoa que você ama está precisando de cuidado: “apesar do mundo ser horrível,/ é bom ficar doente com você”.
Deixar que a pessoa amada seja a criança da sua criança. Dar de alimentar a uma criança que sente a fome de mil crianças, deixar que ela mame nas suas tetas de loba. Deixar que ela cante mais do que pôde cantar Karen Carpenter antes de se dissolver na comunhão. As crianças de Doce mal cantam pra mim o meu poema predileto: “pequena canção de grandes esforços”. Que poderia ser a grande canção dos pequenos esforços (meu antipoema favorito) cantada com tesão, bailada diante do barranco.
Com Doce mal, passo a desconfiar que o grande amor é mesmo ser pequena junto. E, assim, cantar e escrever com as pessoas que a gente ama. Mas, principalmente, o grande amor é amar as crianças do nosso tempo: as que trazem o alimento doce da vagabundagem e que sobrevivem à perseguição de todos os Impérios Romanos.
Julia Raiz é trabalhadora da escrita. Doutora em literatura (UFPR), com ênfase nos estudos feministas da tradução, escreve, traduz e oferece oficinas de escrita. Publicou livros e plaquetes, faz parte do coletivo literário Membrana desde 2017 e é agitadora cultural. Está coordenadora-executiva do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas em Curitiba. Mais em: juliaraiz.com.br