nomes para o indizível
Para quebrar o silêncio de alguns meses, começo me servindo de uma das histórias contadas em As cidades invisíveis, de Italo Calvino.
Irene é a cidade que se vê na extremidade do planalto na hora em que as suas luzes se acendem e permitem distinguir no horizonte, quando o ar está límpido, o núcleo do povoado: os lugares onde há maior concentração de janelas, onde a cidade rareia em vielas mal iluminadas, onde se acumulam sombras de jardins, onde se erguem torres com fogos de artifício; e, se o entardecer é brumoso, uma claridade anuviada infla-se como uma esponja leitosa aos pés da enseada.
Os viajantes do planalto, os pastores que transumam os armentos, os passarinheiros que vigiam as redes, os eremitas que colhem raízes, todos olham para baixo e falam de Irene. Às vezes, o vento traz uma música de bumbos e trompas, o crepitar de morteiros na iluminação de uma festa; às vezes, o alarido da metralhadora, a explosão de um paiol de pólvora no céu amarelado dos incêndios ateados durante a guerra civil. Os que olham lá de cima fazem conjeturas sobre o que está acontecendo na cidade, perguntam-se se encontrar-se em Irene naquela tarde seria bom ou ruim. Não que tenham intenção de ir – e, de qualquer modo, as estradas que descem ao vale são ruins –, mas Irene magnetiza olhares e pensamentos de quem está lá no alto.
A esta altura, Kublai Khan espera que Marco diga como é Irene vista de dentro. E Marco não pode fazê-lo: não conseguiu saber qual é a cidade que os moradores do planalto chamam de Irene; por outro lado, não importa: vista de dentro, seria uma outra cidade; Irene é o nome de uma cidade distante que muda à medida que se se aproxima dela.
A cidade de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem é aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar; cada uma merece um nome diferente; talvez eu já tenha falado de Irene sob outros nomes; talvez eu só tenha falado de Irene.
Pronto. Esse é um dos 55 relatos encontrados no livro de Calvino, contado por Marco Polo ao conquistador Kublai Khan. Ainda que descritivas, cada história narrada remonta mais ao campo dos símbolos subjetivos do que propriamente a uma fala realista. São entonadas como fábulas que, apesar de participarem de um mesmo mundo fictício, trazem consigo uma singularidade própria. Todas as cidades contadas têm nomes femininos e estão categorizadas em títulos – as cidades e o desejo, as cidades e os símbolos, as cidades delgadas, as cidades e os mortos etc. – que se repetem ao longo da obra. Essa transcrita aqui é a quinta a responder por “As cidades e o nome”.
Para falar de nomes e da cidade vista de longe, experienciada somente por seus barulhos, contornos e pela fantasia que se tem dela, me parece preciso falar do silêncio. Ainda que existam outras possíveis interpretações e sentidos para a palavra, penso o silêncio, no que concerne sua função para o sujeito do inconsciente (aqui estamos), como dois: a comunicação de um não dito e o sinal de um indizível. Abordar o não dito em psicanálise parece mais óbvio, pois é aí que se edifica o trabalho preliminar de qualquer análise e de qualquer estudo rigoroso da teoria. O não dito é aquilo que fica velado pela obra do recalque, aquilo que poderia ser dito, que escapa ao Eu mas lá está. Sempre me chamou atenção um caso clínico exposto por Freud em Estudos sobre a histeria, no qual uma moça adoecida, nomeada Miss Lucy, chega, em tratamento, à conclusão de estar apaixonada pelo patrão, causa enunciada de seus sintomas histéricos. Em seguida, seu sintoma original é substituído por outros, desvelados em sequência na rememoração de uma nova cena relacionada ao objeto de sua paixão. Depois disso, retorna ao consultório supostamente livre de toda sua sintomatologia. A ideia de que a paciente poderia, pela via da palavra e da própria memória, encontrar a raiz definitiva de sua aflição e assim curar-se me pareceu inquietante – desejável, mas impensável. E, de fato, o trabalho feito por Freud, situado nos primórdios de suas concepções psicanalíticas, esclarece algo sobre o funcionamento da neurose histérica, mas não marca o processo de uma análise. É mesmo possível dizer várias coisas acerca dos elementos de vida que causam algum tipo de sofrimento e satisfação e que estruturam uma narrativa individual. Mas o que causa, mesmo, o fundamento do sujeito: Isso tem nome?
“cada uma merece um nome diferente; talvez eu já tenha falado de Irene sob outros nomes; talvez eu só tenha falado de Irene.”
O que chamo de indizível, por sua vez, é de ordem mais estrutural, é o fundamento faltante que marca aquele que, nascido neste mundo, é atravessado por uma linguagem que o precede e que não pode tudo dizer. É o que reitera o ponto de vista a partir do qual a palavra adquire seu valor não enquanto enunciado, mas enquanto enunciação. Alguém precisa dizê-la e é preciso a suposição de que alguém a escute (ainda que na fantasia) para que não seja oca.
É essa abertura, esse vazio de sentido pronto, que possibilita a infinidade de enunciações, a atualização constante do dizer. O que resta quando a palavra não dá conta é ponto de angústia e também de criação. Tudo muito bonito e poético, mas, também, razoavelmente sofrido. Às vezes uma festa, às vezes um alarido de metralhadora. Se acreditarmos mesmo que a solução de um sintoma, como o de Miss Lucy, é a solução para uma neurose, desconsideraremos o movimento mais próprio da pulsão, que se escora nos elementos de vida e morte, de sexualidade. Esse não representável da vida, quando posto frente ao Eu, desestabiliza – o que é possível, então, para tornar esse encontro menos horroroso? Não sei, mas penso que a palavra tem algo a ver com isso. Não só pelo ato de falar, mas por seu valor de construção, de significação: de um nó entre corpo e pulsão.
Há algumas semanas, um paciente me enviou um trecho escrito por Clarice Lispector, lido em vídeo por Fernanda Montenegro. Entre muitas coisas, dizia: “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto, mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios — na língua, principalmente –, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer.”
Não se pode falar de Irene vista de dentro, não se pode falar da pulsão enquanto coisa. Quando falamos do que somos e do que nos causa, já falamos a partir de um resto, falamos d’Isso. Isso é o nome de uma cidade distante que muda à medida que se se aproxima dela.
Isabela Cim é graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Letras – Estudos Literários pela mesma instituição. Atua como psicanalista na clínica, buscando elaborar o trabalho a partir da ética psicanalítica e de suas intersecções com temáticas de Direitos Humanos, como questões migratórias e de gênero. Além da formação continuada em psicanálise, segue com os estudos nas Letras no campo da Tradução.